sábado, 27 de julho de 2013

Café Sem Acúcar

Não disse nada, apenas levantou da cama tentando não fazer barulho. Eu não quero acordar agora, permaneço fingindo sono.
E enquanto escuto os seus passos pesados no corredor, meus pensamentos despertam e vão ao encontro dos motivos que levara ele se levantar sem dar aquele beijo no meu cabelo.

Na noite anterior, desentendimentos e ofensas eram atiradas em um e o outro revidava, mas nada ofendeu mais do que o silêncio que ficou depois do "você não é mais como antes."

Afinal, as pessoas mudam? Enquanto tento encontrar a resposta, ele entra no quarto com cheiro de banho tomado misturado com o silêncio.

Foi então que me lembrei de todos os banhos matinais aos finais de semana, a ducha que era divida de maneira solidária, as brincadeiras, os sorrisos e as ensaboadas nas costas. No final, aquele beijo molhado e um recado no espelho do banheiro.

Ainda estou enrolada nas cobertas, não sei por quanto tempo mais eu aguento fingir que estou dormindo. Será que levanto ou espero ele levar o cachorro para passear? É muito provável que não tomemos café juntos.

Resolvo esperar. 

Depois de escutar as correntes passando pelo portão, sento na cama e pego o seu travesseiro e abraço. Sinto o mesmo cheiro, isso não mudou. 

Enquanto caminho até ao banheiro, as mesmas manias ainda estão lá intactas: a toalha esquecida no chão e a loção de barbear aberta. Isso também não mudou.

Depois do banho, vou até à cozinha, e ao fazer o café, sinto que ele continua com o mesmo aroma, mas o sabor muda conforme a quantidade de açúcar e pó que é depositado na caneca.

Então, concluo que a gente não mudou, erramos a dose.

domingo, 7 de julho de 2013

Isso é de Deus

Aquele casal que sentara no centro do templo, de frente para o altar, não trocavam palavras, mas se declaravam o tempo todo. 
Ele, vestido de camisa azul e listras brancas, calça clara e cabelo raspado, segurava com aquelas mãos grossas de homem trabalhador braçal, a mão de sua companheira. E naquele momento uma dança sincronizada era apresentada entre aqueles dedos. Uma mistura de rústico com delicadeza da moça. O casal aparentava ter menos de trinta anos.

Ela, com camisa branca soltinha, carregava em seu braço um delicado ser humano recém-chegado ao mundo. Esse mini ser humano não tinha cinquenta centímetros, mal emitia ruídos, apenas movimentos delicados de suas mãos ainda meio enrugadas. E naquele colo, ele fazia de ventre, se encolhia. 

Moça com tiara de flor delicada na cabeça, exalava calma em todos os seus gestos, e ao passar o mini humano para o colo do seu amado, era possível observar os olhos brilhando daquele pai apaixonado. Ele não dizia nada, apenas contemplava a miniatura humana. 

O silêncio daquela família jovem, gritava amores aos quatro cantos. Ali Deus habitou e fez soar sinos e arpas de amor fraternal. Eles se olhavam nos olhos. E foram embora em silêncio. 

Isso é de Deus.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Manias Esquisitas

Alguém que aceite minhas manias: macarrão com pouco molho, uísque puro e dormir com edredom mesmo no calor.
Gosto de jantar antes do banho, ler somente de madrugada e discutir sobre futebol.
Alguém que aceite quando falo demais e que não estranhe os meus gostos musicais que vão de Caetano à Metallica.

Que deite preguiçosamente no sofá comigo aos domingos sem pressa do dia terminar, sem questionar a preguiça que consome e que ria junto comigo quando tem que levantar para mexer nas panelas.

Que faça caretas em fotos, assim como eu. Que não se assuste com meu gosto por All Star e saltos. Que não se impressione pela quantidade de sapatos que guardo e pela pouca paciência que tenho de comprar roupas.

Mas que entenda que não abro mão das minhas unhas esmaltadas e que não saio de casa sem anéis.

Que aceite minhas vontades de jogar tralhas inúteis fora e que não se apegue aos sentimentos mesquinhos que viram brigas desnecessárias.
Alguém que goste de consertar ao invés de jogar fora. Porque sendo assim, terá vontade de conversar perante um desentendimento e resolver o problema, e não buscar outros rumos, outras pessoas.

Que não questione o porquê gosto de literatura e ao mesmo tempo choro em programas populares sensacionalistas.

E que compreenda minha solidão, que entenda que tenho o meu mundo egoísta do qual entro por algumas horas e não abro a porta. "Não insista."

É esse alguém que quero como companheiro, esse alguém que não questiona as minhas estranhas manias. Que fique aqui comigo enquanto escuto música, escrevo e assisto televisão com o livro do lado.



Inquietude

E foi assim que ele adentrou em minha vida, fazendo barulho. Não deu tempo de pedir para ele não reparar na bagunça. A bagunça do meu coração e da vida que eu levara não foram desculpas para que ele não me invadisse, arregaçando a porta e deixando meu coração aberto. 

E veio com tudo, com força e expressões marcantes. Me fez sentir mulher, sem ao menos me tocar. E veio com audácia, como um guerreiro armado para conquistar um território. 
Declarou guerra à mim. Eu, que jamais arrego perante os desafios, aceitei. Unidos a cada dia numa batalha de quilômetros de saudade, e vencendo o DDD com uma presença fiel. Ele está comigo, ao meu lado, sem esforço, sem intervalos. 
Não preciso sentir o cheiro do shampoo em seu cabelo para ter a certeza que ele está comigo. Não preciso sentir a sua respiração em meu pescoço porque sei que ele dorme aqui.

Mas, em minha inquietude, faço-me racional, ele não me pertence. Não no sentido de posse ao querer torná-lo meu objeto, mas como o sentido de não poder tê-lo para sempre dedicando os seus melhores momentos comigo.
Há mais coisas entre os quilômetros de asfalto, há um medo do passado. Mas, mesmo inquieta, abraço o presente. Entrego-me agora, somente agora. Estou certa que amanhã será a partida. E não é no amanhã que quero pensar. O hoje nos pertence. E hoje ele está comigo.


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