domingo, 8 de dezembro de 2013

O Pôr-Do-Sol de Novembro de 2009

"Ele chegou." Murmurei com as amigas naquele por-do-sol daquela cidade pequena e quente do interior.
Então, eu percebi que ele sorri enquanto olha para baixo e depois fecha os olhos. Meio tímido, mas tão educadamente lindo. 
Esconde segredos por debaixo daquele humor, e como feriado, passou rápido demais, ficou pouco. Foi embora, tão tímido, e deixou o sorrir, tão lindo. Instigou meus desejos mais ocultos. 

Fechou a porta do carro, e em quilometragem lenta, deixou para trás toda uma bagunça: vaso fora do lugar, tapete com a ponta virada, copos diferentes espalhados pela prateleira. Aquela bagunça organizada. Qualquer semelhança que ele fez com o meu coração não é coincidência. 

E tive vivido. E tenho vivido. 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O Circo

Tudo estava em perfeita harmonia naquela tarde cinzenta, o café estava só um pouco açucarado, quente e feito no tradicional coador de pano. A gente não fazia planos longos, só tínhamos certeza que naquela noite iríamos ao circo. Como se fôssemos dois adolescentes, estávamos ansiosos para aquele espetáculo.

Gostava do jeito que ele arrumava o cabelo, mesmo que ele penteasse com todo cuidado em frente ao espelho por uns dez minutos, bastava uma pequena brisa para despenteá-lo, e, quando isso acontecia, eu sorria e abaixava os olhos, com medo que ele me repreendesse e ficasse triste.
Sua vaidade me enchia de orgulho, além disso, tão autossuficiente a ponto de recusar a minha ajuda para passar sua camiseta predileta do Ramones. 

Enquanto me maquiava no quarto dele, ele cantarolava no banheiro "It's my life" do Bon Jovi, tão menino e tão engraçado que me tirava gargalhadas com o improviso do seu inglês.
Mas era tão doce, beijava minha testa toda vez que estávamos prontos para sair: "Está linda como sempre, meu anjo". E de mãos dadas saímos em direção do ponto de ônibus. 

Dividimos o mesmo saco de pipocas - ele pagou o refrigerante - e rimos, emocionamos, nos surpreendemos. Em cada cena engraçada, ele ria tanto que seus grandes olhos ficavam pequenos e úmidos.

Mas era jovem demais para meus planos. E assim como o mágico naquela noite fez sumir a bola vermelha, ele sumiu feito menino no intervalo recreativo.

Fiquei no trapézio sem ninguém para me dar as mãos, ele foi com os malabares aprender novos desafios. Dancei, feito bailarina desritmada entre os panos da minha cama. 

A vida tinha outros planos para ele, e tem outros para mim. E ainda que eu não escute mais a sua desafinação do banheiro, minha alma segue em paz, cantando afinadamente em português: "Se tudo passa, talvez você passe por aqui..."


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