Cheiro da Manhã

    Fui olhar minhas velas para fazer minha oração matinal; estavam no fim. Corri para anotar na agenda que precisava comprar mais velas. Neste exato momento, eu já senti que o café estava pronto e montei a lancheira do meu filho, enquanto o café esfriava um pouco mais na xícara.

    Estranho a gente esquentar a água para o café e ter que esperar esfriar para não queimar a língua. Paradoxos vitais.

    Tranco a porta naquela rotina corrida e já dou bom dia para Cidinha. Ela tem um cheiro marcante e todos os dias a cumprimento. Talvez seja esse o segredo para ela não morrer. Cidinha é o nome que dou para minha planta, a arruda.

    No trajeto para a escola do meu filho, naquele silêncio matinal dele ainda acordando, já começo a pensar de onde surgiu a teoria de que conversar com planta faz com que ela continue ali, viva. E, nessa tentativa de entender as crenças populares, eu já analogizei, trazendo para o mundo real. Não são só as plantas que precisam de timbres vocais para manter a conexão da vida. Faz 75 palavras que deixei de falar sobre planta.

    Filho em segurança dentro da escola, paro na padaria e já peço os 4 pães. Um fresco para hoje. Os outros 3 vão ser feitos na frigideira pelos próximos 3 dias. Amo o cheirinho de manteiga derretendo enquanto canto em voz alta: "onde mora o cálice bento e o divino Espírito Santo..."

    Em especial, minha segunda-feira de hoje começou com um cheiro diferente. Cheiro de arruda com novas oportunidades. Acordei ouvindo meus próprios conselhos. Eu estava viciada em rotinas. Não que rotinas sejam ruins, mas rotina vicia e, como todo vício, é necessária reabilitação. E, por hoje, não. Por hoje eu não vou cair na rotina viciante de ciclos tóxicos.

    Quero cheiros de vida e gosto de melão mordido.

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