46 dias e um silêncio
Eu tinha que chegar na farmácia antes das 19h. Mais uma vez, deixei para a última hora para pegar meu antibiótico, que já tinha acabado.
Eu tinha o dia inteiro, mas já eram mais de 18h30 e, na correria entre o semáforo que nunca abre e a ânsia de saber que a farmácia do posto fecha pontualmente, pensamentos se misturavam entre: "Por que eles inventaram de colocar 879 semáforos em rotatórias aqui nesta cidade interiorana que quase não venta?" e "Por que o silêncio dele parece uma mão inteira apertando meu pescoço? Mal consigo respirar.".
Cheguei no posto. Fácil estacionar. Ufa, são 18h47. Dá para pegar. Chego ansiosa à recepção e logo a decepção: "A farmácia fechou às 18h45, agora são 18h48. Chegue mais cedo amanhã." Olhei o celular para conferir as horas e, realmente, ele não mandou mesmo nenhuma mensagem ainda, e já eram 18h49. Vou atrapalhar meu tratamento se eu não tomar esse antibiótico. Como eu sou irresponsável por deixar em cima da hora coisas sérias.
Saio daquele posto, início de noite bem frio para uma cidade quente, bem decepcionada, e começo a chorar. Choro copiosamente. E não era pelo meu tratamento atrasado, nem pelo sintoma da procrastinação. Era o silêncio que estava segurando meus pulsos. Havia lágrimas correndo pelos meus olhos que eu nem conseguia mais segurar.
Nunca dei chance para o sofrimento, sempre adio. Todo dia eu falo que é amanhã que vou sofrer. Não dou oportunidade para a dor ser dona do meu dia. Essa procrastinação da dor eu já disse em outros escritos. Hoje não. Hoje não vou sofrer. Colocar música para chorar é coisa de gente que ama sofrimento. Eu não. Gosto da dor física, ela me dá tesão, mas a dor sentimental me joga num limbo, e é opcional mergulhar. "MAS QUE CARALHOS É ISSO, CRISTIANNE? TÁ MESMO COLOCANDO PHIL COLLINS NO RÁDIO DO CARRO?"
Quarenta e seis dias antes eu tinha baixado um aplicativo sem imaginar que alguém conseguiria transformar um abraço em moradia.
Domingo, 10 de maio.
Eu vivia na vida pacata de cidadã, de trabalhar, cuidar da casa, do filho e da religiosidade. Será que abro a porta para retomar o meu sonho ainda não realizado? Minha mesa do café da manhã dominical está faltando gente. Hoje vou baixar aquele aplicativo de gente doida e tentar ver se tem alguém ali diferente dos meus contatinhos, que são chatos e mais pacatos que a minha vida. Alguém que não faça questionário do IBGE. Não por carência, mas por esperança...
No meio de tantos matches, apenas 2 pessoas eu quis passar meu número de celular e sair daquela masmorra de cardápio humano. Saí imediatamente. E deixei o papo ir fluindo...
Ainda sem ligar o carro em frente ao posto: You're the only one who really knew me at all.... How can you just walk away from me...
Eram as lágrimas já misturando com coisas que saíam do nariz e não tenho nem lenço para limpar. Nunca precisei carregar lenço. Eu nunca choro.
Se eu for na UPA, eu consigo o remédio... Liguei o carro e tento enxugar as lágrimas e secreções com um pano qualquer... Recomponho... em vão, porque as lágrimas não pararam de cair... só deixo, Phill Collins não parou ainda de narrar:
I wish I could just make you turn around
Turn around and see me cry
There's so much I need to say to you
Ele era a minha ocitocina. Minha dopamina. Carinhosamente, eu o chamava de dopaminha. E eu nem tinha receita para isso. Nem deu tempo de falar isso para ele. Era o olhinho dele cheio de ternura e histórias contidas, de mistério e sonhos que me chamava a fazer uma lista de coisas que não fizemos e traçar planos para realizar.
Os olhos verdes que deixavam os meus vermelhos naquele dia que buscava a cura da carne pelo antibiótico, mas não tinha cura para aquelas lágrimas que corriam ainda sem conseguir limpar direito. Ele prometeu para mim que estaria ali... E estava quando ele silenciou meus tormentos apenas com um gesto de "deita aqui no meu peito". Era ali que eu morava no recanto verde, onde eu conseguia ver pela primeira vez um horizonte. Onde o silêncio era conforto e não desespero.
Entreguei a receita do antibiótico para a farmacêutica da UPA com minha manga úmida de secreções. Uma umidade cheia de culpa e silêncio. Que vontade de perguntar se tinha como pegar algum remédio para silêncio sem precisar de receita.
Já eram 19h40 e meu filho me esperava pra jantar. O sorriso leve volta a minha face, porque eu lembro da emocionada sensação de querer uma bicama no quarto dele para o próximo amiguinho dele fazer companhia. Choro copiosamente de novo.
Procrastinei demais para pegar o remédio no posto a tempo. Mas a UPA estava lá para remendar meu sintoma. E quando a saudade não está na tela me fazendo rir... quem vai remendar esse vazio? Tem receita?
Meu tratamento está em dia. A saudade continua sem bula.
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